dezembro 31, 2018

A 1950s kind of gal

Eu adoro o fim de ano.
Poderia detestar. Desde a reflexão sobre o término de mais um ano sem que se tenha feito nada do que se tinha planeado 365 dias atrás até ao inchaço, digamos assim, decorrente da estupidez de comida que se ingere, tem tudo para se odiar os últimos 15 dias do ano.
Mas eu não, eu gosto. Gosto de tirar uns dias de férias e ficar na casa amplamente decorada dos meus pais. Gosto de mandriar no sofá enquanto, lá está, como o meu peso em bolo rainha. Gosto da lareira, da cadela aos meus pés e de pura e simplesmente não pensar em nada.
Este ano, decidi gastar tempo que não retorna em telefilmes de Natal. Sim, telefilmes de Natal.
Todos da Hallmark, um canal que em tempos a Cabovisão tinha, mas que deixou de operar na Península Ibérica, e que se especializou em telefilmes. Parece que o negócio dos postais era muito lucrativo e eles decidiram expandir para outras coisas.
Os telefilmes são a coisa mais lamechas, previsível e formulaica que se possa imaginar. Os telefilmes de Natal, contudo, são excelentes para motivar uma pessoa a entrar no espírito de Natal: todos eles têm lugar numa qualquer terrinha suburbana americana que leva o Natal muito a sério, com tudo decorado a rigor, festivais de Natal e grupos que levam cânticos natalícios às portas dos seus vizinhos.
Ver um telefilme destes começou por ser um guilty pleasure, mas rapidamente se tornou um estudo sociológico. É que assim que acaba um, a Fox Life faz questão de transmitir logo outro, sem intervalo. E uma pessoa até já está tão encaixada no sofá e tão quentinha que para quê sair do sítio? Até poderia mudar de canal, mas a certa altura até quero ver onde aquela história vai dar.
O resultado, na realidade, é sempre o mesmo: senhora de carreira vê-se apanhada em dita terrinha a designar, conhece senhor (muitas vezes também forasteiro e, com muita frequência, pai viúvo), quer urgentemente voltar à sua cidade, mas uma série de enganos mantêm-na lá; no final, ela percebe que a vida que tem e sempre havia ambicionado na grande cidade não tem qualquer alma e não a satisfaz, por isso decide desistir de tudo e ficar na terrinha pequena, mas cheia de coração.
Há várias características que tornam estes filmes um. Um deles é que o sentido de comunidade e a família são o mais importante e estão acima de tudo. E, se pensarmos bem, são, mas não daquela forma. Estes filmes fazem questão de impingir que o equilíbrio não é possível, que só o "tudo ou nada" é a solução. Não se pode trabalhar e procurar conciliar carreira com a família e tudo o que a envolve. É imperativo dedicar todas as horas acordada a marido, filhos e comunidade. Naturalmente, o marido tem de trabalhar e pode - deve! - sair de manhã e só voltar à noite. A senhora está lá para garantir que tudo funciona como deve ser e esse é o sentido da vida. Comprar comida feita? Sacrilégio! Sobretudo se forem bolachas de Natal. Que mulher respeitável compra bolachas em vez de as fazer? Claro que merece os olhares de reprovação. A ambição pessoal é pecado e deve ser desencorajada porque o contributo feminino para a sociedade tem de passar pelo cuidado dos outros e anulação completa do ego.
Poderá haver quem queira tomar essa decisão de livre vontade. Haver filmes que veiculam a mensagem de que esse é o único caminho faz-me transportar para os EUA pós-II Grande Guerra em que as revistas, anúncios e indústria cinematográfica se uniram para mandar as mulheres para casa porque os homens voltaram traumatizados e precisavam que alguém tratasse deles como se voltassem a ser crianças em casa da mãe.
Mas deu-me vontade de fazer bolachas e decorar todos os cantos da casa. Nisso foram bem-sucedidos.

agosto 29, 2018

Damn, it's been 3 years! 😮

Confesso que já me tinha esquecido que isto existia.
Mas, hoje, enquanto perdida no meu ofício insignificante, recebi email do Blogger a perguntar se queria continuar a aprovar os comentários. Primeiro ri-me porque, que estupidez, quais comentários?
Depois lembrei-me de dar uma vista de olhos ao velho blog.

Três anos.

3 ANOS

E assim se passa uma vida. A acordar todos os dias à mesma hora, a encontrar as mesmas pessoas; algumas de quem se gosta, outras que puxam soco (backpfeifengesicht é uma palavra muito útil no meu dia-a-dia ao descrever sentimentos que surgem mais frequentemente do que gostaria), mas temos de fazer o nosso melhor sorriso cínico e/ou manipulador porque a cortesia profissional impõem-se. O dia acaba por parecer ter poucas horas e sobra pouco - muito, muito pouco - para o que realmente se quer fazer. Que às vezes é, aliás, uma incógnita. Porque, lá está, não há tempo útil para se pensar no que se quer.

Gostava que um novo post neste blog moribundo fosse um pouco mais positivo, mas parece-me que reflecte o sentimento que assola toda a gente que se vê na casa dos 30 com muito poucos vistos na sua bucket list ou qualquer coisa do género.

E, pronto, aqui estou eu, a uma hora do almoço, com trabalho pendurado, a escrever algo que ninguém vai ler.

E ainda bem.

agosto 27, 2015

Kettlebells

Também conhecidos como os objectos que me obrigaram a assumir uma nova posição relativamente às fitas de absorção de suor. Porque vai-se a ver e têm mesmo utilidade.

Não obstante, continuam a ser ridículas.

agosto 24, 2015

Só porque é um momento histórico

A adultícia tem destas coisas.
O trabalho, a rotina, a tentativa de passar o máximo de tempo possível com o namorado (era para escrever cara-metade, mas voltei atrás, porque é super piroso), tudo implica que o blog fique num qualquer recanto da web a ver teias de aranha a crescer - no pun intended.
Também é falta de vontade. E perceber que grande parte das parvoíces que escrevia aqui já as partilho com o meu principal leitor, por isso qual é o objectivo?

Nenhum! Não há objectivo, gente! Porque todos caminhamos lenta e inexoravelmente para a nossa morte certa, convencidos de que vivemos com um propósito.

Ugh.

Após esta breve explosão existencialista (Sartre ficaria orgulhoso), passo agora a comunicar o que leva a boa filha a regressar à sua casa virtual: eu tenho marca do bikini!

E é isto. A futilidade move a minha vida.

Podem retornar às vossas vidas que nada acrescentam ao eterno progresso do Cosmos, que eu vou almoçar.



 - Segue-se novo interregno de 2 anos -

fevereiro 11, 2015

Damn, what's the deal with #3

Há uns anos chegou a tribunal um caso de difamação contra o Rui Rio porque uma revista (jornal? Não me lembro e não sou pessoa de grandes pesquisas) publicou uma foto de um edifício com uma parede onde se lia "Rui Rio FDP". Isto apareceu na capa (pois, acho que foi uma revista) e deu origem a um processo judicial. Todo o caso é risível, mas a defesa do editor é hilariante. Em traços gerais, o senhor disse que não estava indirectamente a chamar Filho Da Puta ao Rui Rio como aquela publicação indiciava. O que ele achava, na verdade, é que ele era um Fanático Dos Popós.

(Para vossa informação, filho da puta não constitui injúria. Filho de puta, sim. É daquelas minudências que poderão ser úteis no futuro.)

Não sei se o Rui Rio é ou não um fanático do popós, não acompanhei o desenrolar da história. Sei que há, de facto, muitos fanáticos dos popós por aí. Conheço alguns, aliás. Mas haver tipos com uma obsessão pouco saudável (nem que seja por motivos ambientais) por carros é do conhecimento geral. O que eu não sabia é que havia fanáticos das bicicletas. Por uma questão de consistência na idiotice da nomenclatura, vamos apelidá-los fanáticos das bicis. O que me leva a esta terceira edição da rubrica "Damn, what's the deal with…?".

Damn, what's the deal with bike fanboys?



E por 'bikes' não quero dizer motas, quero mesmo dizer bicicletas. Desculpem, bicis.
As bicis têm ganho espaço nas nossas cidades. Cada vez se vêem mais pessoas a deslocar-se de bici para o trabalho ou para a escola e eu acho isso um enorme progresso, mesmo que isso implique a subida da rua Nossa Senhora de Fátima a pé porque não se tem força de pernas suficiente para levar aquilo até ao fim. Enfim, é de elogiar o compromisso de algumas pessoas com bicis, até porque só traz vantagens: é ecológico, estaciona-se em qualquer lado, melhora a condição física e fica muito barato. 

No entanto, e há aqui um enorme 'mas', a bici não nos leva a todo o lado com eficiência. Se eu quero ir de Aveiro ao Porto, faz-se, claro, mas é um atraso de vida, sobretudo se se tiver bagagem. Já nem falo no conforto de um carro ou de transportes públicos no caso de estar muito frio ou a chover. Qualquer pessoa razoável percebe, mas os fanáticos das bicis (FDB., para facilitar) não. Ou melhor, percebem, mas optam por ignorar o óbvio. E é esta perspectiva da realidade, que opõe pessoas racionais a obcecados, que faz a distinção entre pessoas normais - que, ok, vêem e fazem uso das claras vantagens da bici, mas compreendem as suas limitações - e os FDB. 

Os FDB são pessoas cuja vida gira em torno da bici. Para o FDB, a bici não existe para o servir ou para lhe facilitar a vida, é ele que a serve e, por isso, o FDB vive em função da bici. A bici não é utilizada só nas circunstâncias em que é mais competitiva. Não, o FDB recorre à bici em todas as situações, mesmo quando é claríssimo que a bici só lhe vai complicar a vida. Mas o FDB, sendo um FDB, não vai reconhecer factos, pelo que vai imputar a culpa pela sua cegueira a outrem. 

Outrem é, neste caso, uma coisa. Um carro, para ser mais concreta. Também podem ser pessoas, todas aquelas que não são também FDB e que defendem minimamente e/ou usufruem de carros. É verdade que existem carros a mais e há uma excessiva dependência do automóvel. Infelizmente, a nossa rede de transportes públicos está longe de ser perfeita e a situação piora quando se sai das grandes cidades. Acontece que o FDB é um fanático e, como tal, insensível às dificuldades alheias. Portanto, não fica tocado quando alguém lhe diz que tem de estar no trânsito durante 45 minutos para chegar ao trabalho porque não tem alternativa. "Ah, mas tens", responde o FDB. "Faz como eu e vai de bici para o trabalho."
- Mas eu tenho de ir de fato e gravata. Vou lá chegar todo suado e amarrotado.
- Vais com outra roupa e trocas quando chegares.
- Mas eu tenho filhos e tenho de os deixar no infantário…
- Eles que vão também de bicicleta!
- Mas os meus filhos têm 1 e 3 anos e moramos a 20 km da cidade. Temos mesmo de usar o carro.
- Então és um assassino.
- Mas, mas…
- Assassino!

Porque é isso que todos os condutores são para os FDB: assassinos. Não há cá diferenças de carácter entre os milhões de condutores, são todos, mas todos, uns homicidas que não permitem aos FDB pedalar livremente. 

Os FDB têm amigos que são, nas suas palavras, assassinos, e tentam rebater o apodo. Penso que não é preciso dizer que o fazem sem sucesso. Logo os FDB vão desencantar estudos e estatísticas, e que a verdadeira vítima da estrada não é o peão, mas sim a bici, e que estacionam em passeios e em cima de ciclovias, e que deviam morrer todos, e tudo e tudo e tudo. 

Têm razão em alguns pontos, claro, mas o pior de tudo, aquilo que torna os FDB insuportáveis é que são a versão bici urbana da Testemunha de Jeová: todos os que não são FDB são hereges e cegos; tentam evangelizar sempre que surja a oportunidade, que vai surgir, porque eles não falam de mais nada; e não se calam! Nunca! É o único assunto que têm, portanto vão impingi-lo a toda a gente seja qual for o tópico de conversa.

Pessoa normal - Viste aquele filme ontem? Estava espectacular!
FDB - Reparaste naqueles 30 segundos, quando filmam a garagem, que ele tinha uma bici? E faz sentido porque as bicis são o melhor meio de transporte que existe e os condutores são assassinos.

Ah, já referi que todos os FDB com quem me cruzei são solteiros sem filhos e os amigos com quem convivem no dia-a-dia são, também eles, FDB? Pronto, é isso.


Até ao próximo Damn, what's the deal with…?

dezembro 17, 2014

Damn, they're tacky

A moda é um bicho volúvel. Há uns anos, as mom jeans, aquelas calças de ganga de cintura subida e ancas bem arredondadas que davam ao rabo um aspecto plano tudo menos kardashiano, eram o inferno na terra. Agora, vejo milhentas miúdas com uma versão actualizada das mom jeans, para mais com uma lavagem excessiva e pindérica. 
Ainda assim, há coisas que não mudam. Uma delas é não vestir calças brancas no Inverno. Casacos brancos, ok. Camisolas brancas, maravilhosas. Botas brancas, por favor não o façam, mas é socialmente aceitável. Calças brancas are a no-no.
Nos EUA há um ditado que diz "No white pants after Labor Day". Aqui não há nada do género, por isso gostaria de instituir a regra "Nada de calças brancas depois do 5 de Outubro". Pode ser que pegue…

dezembro 05, 2014

Damn, I've got a wish for the new year

Agora que o ano está a chegar ao fim, parece-me que é oportunidade perfeita para fazer um balanço da nossas vidas e das circunstâncias que nos rodeiam. Podia ser nos primeiros dias de Janeiro, como as lojas, mas assim eliminava-se logo à partida a possibilidade de começar o ano do zero. Começar qualquer coisa a 5 de Janeiro não é a mesma coisa que começar a 1! É, mas achamos que não, portanto mais vale fazer a vontade à estupidez do cérebro e fazer do novo ano uma tábua rasa desde o primeiro dia.
Claro que eu não vou cair no chavão de escrever aqui "em 2015 vou comer melhor e fazer mais exercício" ou "é este ano que vou fazer aquela viagem de sonho" ou ainda "raios me partam se não é este ano que mando o meu chefe à merda, me demito e arranjo o emprego de sonho" (spoiler alert para esta pessoa: não vai acontecer; mais vale manter a hipocrisia hierárquica). Como sou uma pessoa que não olha apenas para o seu umbigo e se preocupa com o bem comum, o meu desejo para 2015 é só um. E é tão fácil de pôr em prática…

CP, tudo o quero para 2015 depende de vocês: carruagens silenciosas.

Num mundo cada vez mais caótico, cheio de estímulos, ruídos ensurdecedores e cidadãos que se empenham em proporcionar-nos uma banda sonora com qualidade duvidosa, as carruagens silenciosas serão como um oásis num deserto.

Chega de chamadas telefónicas só para encher chouriços!

Chega de chamadas telefónicas para discutir questões prementes da vida privada, mas que se insiste em partilhar com o comboio inteiro!

Chega de chamadas telefónicas para indicar as meias de vidro que se usaram no casamento da sobrinha e que estão indevidamente arrumadas na gaveta das cuecas, sendo por isso urgente que "tu, filha, vás lá agora e as arrumes no sítio e vou dizer isto no volume mais alto que os meu pulmões me permitirem"!

Chega de chamadas telefónicas em geral!

Chega de earbuds manhosos! Tão manhosos que todos à volta do moçoilo faux cool têm de ouvir "era só jajão / não sei quê / não sei quê" e o último hit da Katy Perry porque ele se recusa a comprar material de jeito; prefere ir aos chineses largar 3€ todos os meses.

Chega de pitas histéricas a falar das maravilhas da praxe / caloiros desobedientes / bebedeiras de caixão à cova / insert dumb topic! Chegadas à universidade, o upgrade para "caloira" ou "veterana" não passa de uma mudança de nomenclatura. No fundo, elas continuam pitas.

Chega de seguidores de José Gomes Ferreira que discutem o estado da nação sem uma base mínima de informação credível! Não, ver o Marcelo não conta, portanto pára de dizer bacoradas e cala-te!

Chega!!!

Deixem-me usufruir do meu percurso de 1h só na companhia do meu livro e do ocasional grunhido que identifica a necessidade de criar espaço para outra pessoa.

Simples, não é?
Podem agradecer-me em géneros (dica: ando com vontade de ir à Islândia) quando se concretizar.


novembro 20, 2014

Damn, what's the deal with…? #2

E não é que, afinal, consegui arranjar assunto para um segundo tomo da colecção Damn, what's the deal…? ? É que, se é verdade que virtualmente tudo me irrita, às vezes a vontade e inspiração para escrever não abundam. A bílis que me sobe ao esófago, no entanto, impele-me a deitar toda a exasperação cá para fora e exorcizar os demónios, de maneira que cá estamos.
Sem mais delongas, passo a apresentar o tema de hoje da rubrica what's the deal.

Damn, what's the deal with Pedro Chagas Freitas's fan 'literature'? 

Em primeiro lugar, devo esclarecer que estou a usar o termo 'literatura' de forma muito liberal. O que Pedro Chagas Freitas escreve não pode ser classificado de literatura. É verborreia que, por algum motivo que me ultrapassa, é glorificada e elevada ao estatuto de literatura.
"Ai, mas ele descreve tão bem o espírito humano e o amor incondicional que somos capazes de sentir por outra pessoa" ou uma merda do género. Não! Ele não descreve nada bem.
Vamos usar "Amo-te tanto, meu amor" para efeitos exemplificativos. Ele pega nessa ideia e escreve dez páginas com variações lamechas da mesma frase. Até se poderá argumentar que ele é um 'escritor', vá, romântico, à la Nicholas Sparks, mas claramente não aprendeu com o seu ídolo. Parece-me que o Nick Sparks é um bocadinho mais diversificado, não nos temas, mas na palete sintáctica.
Não obstante estes óbvios problemas (graves para quem se intitula o "Mourinho da escrita"), o Chagas Freitas conseguiu a proeza de arrebanhar uma legião de fãs que o colocaram no primeiro lugar no top de vendas de ficção e em 90% das toalhas de praia no Verão passado.
Com os fãs, chegam os imitadores, esperançados de lhe reproduzir o estilo e o sucesso.

O que é que isto tem a ver comigo se eu fujo de tudo o que se possa assemelhar com um livro seu?

Sucede que há "imitadores" infiltrados nos meus amigos do Facebook. Os resultados são assustadores e deixam-me num conflito de sentimentos, que passam do riso incontrolável, para a incredulidade, para a vergonha alheia e consequente vontade de dizer à pessoa que pare de arruinar a sua vida social, para voltar à incredulidade e ao divertimento.

Num destes dias, percebi que o fenómeno estava a crescer e estava tornar-se inescapável e, como não posso dizer às pessoas que é estúpido e mau e não traduz qualquer talento ou sensibilidade artística intrínseca (porque 90% das toalhas de praia), sou forçada a gozar com elas e, claro, a reproduzir alguns trechos.

*ahem*

A água que lhe corre pelo corpo não é só água, é a água dela. A água que lhe escorre pelo cabelo, não é só água. È a água do seu cabelo. A água que lhe escorre pela pele perfeita, suave, encantadoramente suave é uma água mais feliz do que as outras águas. Sempre me inspirou a água. quero toda a água. Seremos nós capazes de nos fundir como a água que te escorre pelo corpo... Uma fina, quase imperceptível camada de ti que passa por ti, que é tua, ou por breves momentos é tua, a tua água.... Dá-me a tua pele. Prometo ser água.

Ou ainda:

Bates devagar e inesperadamente à porta, e entras, convicto de que o breve toque serviu para pedir licença. Podias ficar na ombreira da porta, simplesmente a observar, mas gostas de desbravar sem te fazeres notar. Entras sem pedir licença, envolto em nevoeiro, mas consigo sentir a tua presença. Vejo-te mal, mal consigo ouvir-te e, aquilo que oiço, interpreto de forma ambígua. Mas sinto-te (oh se sinto), e já me habituei à tua presença desfocada. Entraste sem pedir licença, mas fixaste-te junto à lareira e quando me aproximo, de mansinho, sinto o calor do fogo que crepita e que dissipou o nevoeiro. Olho e já consigo ver-te, continuo sem ouvir-te, mas sinto-te, e isso basta-me. 

And so on, and so on, porque este tipo de coisas pulula pelo Facebook fora. 
Se só tivesse de dar de caras com uma xaropada destas de vez em quando, vivia bem. Desgraçadamente, esta gente é incentivada por "amigos", que exclamam que estas… coisas são lindas, maravilhosas e tocantes. Vão mais longe! "Promete que escreves um romance, que vou ser o primeiro a comprar". Hã? Estas pessoas saberão que há muitos mais livros desta natureza que romances de jeito? Que estas merdas vendem que nem pãezinhos quentes e que estes Chagas Freitas wannabes não vão passar disso mesmo?

Eu sei que isto é energia desperdiçada, que é um esforço inglório, mas lutarei contra a Pedro Chagas Freitas fan 'literature' até a vida me permitir!
Por favor, façam também a vossa parte. Por amor ao mundo e à sanidade mental global. Em prol do bem comum.

novembro 07, 2014

Damn, what's the deal with…? #1

Hoje vou inaugurar uma rubrica: Damn, what's the deal with…? É um espaço onde tudo me será permitido, em particular discorrer bílis sobre questões que me irritam em profundidade. Se me conhecessem (vocês, leitores imaginários, com quem converso durante tempos mortos no duche, quando não estou a ter ideias brilhantes que nunca ponho em prática porque sou uma procrastinadora crónica), saberiam que virtualmente tudo me irrita. No entanto, devido a algumas incapacidades que me impedem de ser uma pessoa completamente funcional (e nesta altura remeto-vos para o parênteses anterior), este Damn, what's the deal with…? #1 será, com elevado grau de probabilidade, o único.
Sem mais delongas, presenteio-vos com

Damn, what's the deal with Cristina Ferreira?

Cristina Ferreira - apresentadora de televisão, autora (?) de livros de culinária e, aparentemente, blogger

Por algum motivo obscuro, esta pessoa caiu nas graças de todos e de lá ainda não saiu. Ora que é muito simpática, ora que é bonita, ora que é, dizem, sexy. A mulher está em todo lado. T-O-D-O! De cada vez que vou às compras e estou à espera na caixa, constato que ela agracia a capa de 9 em cada 10 revistas. Se tenho de estar numa qualquer sala de espera, é claro que a TVI está ligada e tenho de levar com a senhora. Seja de manhã, de tarde ou de noite. Não interessa a hora ou o dia da semana, ela está sempre lá. Ontem, percebi que nem no Facebook me safo. Eu não a procuro, mas ela encontra-me. Grupos de emprego? Cara Cristina, seja bem vinda! Case in point:


A minha questão é: porquê? Por que é que o histerismo da senhora ainda não fez ninguém com poder pensar "bolas, que a gaja fala sempre a um volume que faria um cão fugir! Se calhar, é melhor tirá-la da televisão". Mas não, inexplicavelmente, cada vez mais pessoas gostam dela. Conheço pessoas inteligentes e cultas que dizem, e cito, "ela podia ficar caladinha, mas é muito bonita". A sério? Se fosse às terreolas do Portugal mais profundo, onde o banho diário e a roupa do século XXI ainda não chegaram, encontraria, com toda a certeza, mulheres mais bonitas que ela. Quando muito, iguais a ela, só que sem a produção. É assim tão mau. 
Se a cara Cristina se ficasse pela parolice e pelo histerismo, ainda era como o outro. Mas não. Ela é burra. Fosse ela esperta e tudo seria perdoado. Que raio de poder modificador da mente será emitido pela TVI para que haja todo um país rendido a esta bimba? Que se sente impelido a saber tudo sobre a sua vida privada, que é habilmente explorada e manipulada? Que a cita como exemplo para a vida?
Há aqui um poder oculto em acção que, arrisco dizer, entra quase no território das teorias da conspiração. Se calhar, é o rei da civilização superior reptiliana que está por detrás disto em preparação da tomada de poder.
Não tarda nada e torno-me numa presença assídua nas actividades da Nova Acrópole numa tentativa desesperada de tentar explicar este fenómeno. Daí até me tornar numa profeta do Apocalipse é um passinho.
E é isto que a Cristina Ferreira faz. Dá com uma pessoa em tola. 

Stay tuned for the next Damn, what's the deal…?

outubro 22, 2014

Damn, who the hell is she?

Todos já passámos pela experiência "conheço alguém igual a ti!", certo?

Certo. Pelo menos, quase toda a gente que conheço já ouviu esse comentário, carregado de um entusiasmo excessivo para aquilo que é, pelo menos uma vez na vida.
Só que eu não. Eu pertencia a uma elite que se podia orgulhar de ser única, de não haver ninguém fisicamente parecida com ela, de ouvir com frequência que tem traços pouco comuns. Isto era eu até finais do passado mês de Setembro. Ah, como eu vivia numa idílica bolha preenchida por um valor próprio superior ao dos outros. Essa bolha foi brutalmente rebentada por um quasi-albino numa FNAC. Ao menos, poderia ter sido numa Arcádia; recebia tristes notícias, mas emborcar chocolates de qualidade ajudaria a suavizar o golpe!

Procurava eu funcionário simpático e prestativo e cruzo o olhar com um funcionário assustado e desconfiado. Depois de me aproximar, lá relaxou, mas presenteou-me com um "antes de mais nada, conheço alguém que é igual a si! Até me assustei porque pensei que era ela". Mas quê? Ela é má? Ela bate-te? Ela ameçou-te que se te visse outra vez te atirava ácido a essas sobrancelhas brancas e próximas da inexistência?
OK, disse eu. O que é que uma pessoa responde a algo deste género? "Pois, está bem" é o que sai porque não há mais nada que se possa dizer.
Completei a transacção e, no final, ele despede-se com "e não se esqueça: se for a Lisboa e encontrar uma sósia, não se assuste." Sim, sim, muito obrigada, pessoa esquisita.

Duas semanas mais tarde, quis o destino que eu tivesse de ir a Lisboa. Nunca mais tinha pensado naquele encontro na FNAC, mas o espírito da minha sósia perdida pairava no ar e guiava os meus movimentos. Só assim se explica que, no metro, me tivesse sentado em frente de uma senhora que se pôs a olhar insistentemente para mim e que nem sequer era discreta. Quando percebeu que a sua dúvida não seria desfeita. Inclinou-se para a frente e roçou a minha perna ao de leve com uma familiaridade, essa sim, assustadora.

- Olhe, desculpe, a menina não trabalha no hospital dos Anjos?

Se fosse um gajo a perguntar-me isto, acharia que era um piropo, a que se seguiria "é que linda como és, só podes ter vindo do Céu eheheh" ou uma parolice do tipo. Mas não, era uma senhora de meia idade que demonstrava uma genuína vontade de conhecer a minha actividade profissional.
Não, minha senhora, não trabalho no hospital dos Anjos. Nem sequer sou de Lisboa, ou moro cá.

- Ah, não me diga? Eu ia jurar que era uma médica que me tratou lá. Eu estava aqui a olhar para si e a perguntar-me "é ou não é?" e tive mesmo de perguntar.

- Pois, mas não sou… (sorriso amarelo)

- É incrível como algumas pessoas são iguais, não é?

Aceno a cabeça e olho para o negro infinito do túnel para lá da janela da carruagem.

Várias perguntas me passaram pela cabeça: esta médica e a amiga do funcionário da FNAC são a mesma pessoa? Se sim, quem é esta pessoa? Onde é que arranjo o nome dela? Qual é o hospital dos Anjos? É o D. Estefânia ou está a escapar-me alguma coisa? E por que é que não encontro o corpo clínico do hospital? Preciso de respostas!

Estas duas histórias entrelaçadas começam a atormentar-me. A ideia de haver um outro eu, só que mais bem sucedido e aparentemente muito querida pelos seus utentes, deprime-me e faz com que os meus 30 anos sejam ainda mais difíceis de enfrentar. Espero que ela ao menos seja gorda para tornar a minha existência em relação à dela um bocadinho mais feliz.

setembro 05, 2014

Lothlorien, um portento na ajuda ao próximo

Antes de mais nada, uma breve contextualização. Eu moro por trás de um centro de distribuição de estupefacientes. Droga, vá. Ao mesmo tempo, este cenário glamouroso é também habitado por gente de bem que não olha duas vezes para a plebe que quase atropelou a bordo do seu BMW comprado há 4 meses, e por velhinhos amorosos que continuam a encarar a zona como o bairro simpático e com espírito de entreajuda de há 40 anos. Não é. É uma selva urbana do salve-se quem puder.

Com esta ilustração em mente, pensem na vida difícil que os supramencionados velhinhos terão. É aqui que entra em cena Lothlorien, a boa samaritana do séc. XXI. Vou eu toda contente a descer a rua, a caminho de um almoço que ainda tinha de ser feito, quando vejo uma senhora quase sem se mexer e com a mão em cima do coração. Agarrei o telemóvel, convencida de que iria ter de chamar uma ambulância, que a senhora parecia prestes a cair. Acerquei-me e perguntei-lhe se precisava de ajuda.
- Ai, menina, que eu moro ali e estou que nem posso do meu joelho! - nesta altura, o braço dela já estava entrelaçado no meu. É claro que eu ia ajudar a senhora de boa vontade, mas isto foi quase coacção.
Pronto, lá ajudei eu a senhora a atravessar a rua até casa na estonteante velocidade de 2cm por minuto.
- Muita saúdinha, menina. Foi a única pessoa que parou para me ajudar.

Sacanas insensíveis… Por outro lado, eu também fui a única que parou tempo suficiente para que a senhora conseguisse agarrar um braço, qualquer braço, portanto é possível que seja mais por aí.

200m à frente encaminhei um homem para o bairro do Aleixo, esse grande supermercado da droga, cujos pregões eu ouço do terraço do meu prédio. Ele perguntou-me qual era o caminho mais rápido para o Aleixo e eu fiz a minha segunda boa acção no espaço de 10 minutos.

Continuei o caminho cheia de uma realização que só o altruísmo dá, qual Madre Teresa dos 2010s. No fim de contas, se ainda não nasceu uma herdeira à altura, eu vou dando para o gasto.


Não, espera!…

agosto 28, 2014

Damn, they're deceitful

Verão não é Verão sem um extenso rol de produtos para emagrecer. Moro perto de uma farmácia e todas as semanas estão a anunciar um 'medicamento', digamos, novo. Agora é o café verde e antes dele foi a cetona de framboesa, seja lá o que isso for. Claro que Verão também não é Verão sem pelo menos 27º em 50 de 90 dias e, no entanto, cá estamos. Não obstante o Inverno prolongado Primavera e Verão adentro, as pessoas regulam-se pelos meses e presumem que, se é Agosto, há que mostrar pele, nem que seja de galinha. Vai daí, o pessoal - e por pessoal, quero dizer mulheres - está muito preocupado com comentários jocosos alheios (entre os quais, devo confessar, os meus) e procura o último comprimido milagroso que lhe permita parecer a modelo de lingerie da marca do Lidl sem movimentar mais músculos que não os envolvidos no processo de levar uma garrafa de água à boca e beber. Ah, e sem deixar comer uma caixa diária de rolinhos Favorini. Mais uma vez o Lidl. Acho que o Lidl me devia pagar. Ouviste, Lidl? Ou melhor, hast du gehört, Lidl?

Neste cenário, é normal ver anúncios a comprimidos para emagrecer em tudo quanto é canto. O que eu nunca esperava ver era uma marca que nada tem a ver com a embusteira indústria do emagrecimento a usar as inseguranças e a inacreditável credulidade da mulherada para se publicitar.

Se, como eu, sobem uma encosta todos os dias para ir para o trabalho, percurso ao longo do qual vêem passar 5 ou 6 autocarros, enquanto pensam, suados por todos os lados, "que bem que se deve ir de cu tremido dentro do autocarro climatizado, mas seria estúpido porque moro a 1km do trabalho", então com certeza já terão visto, espetado num autocarro, um anúncio cujo slogan é qualquer coisa como 'livre-se das gorduras'. Ao lado destas três palavras mágicas aparece uma mulher jovial que exibe um sorriso despreocupado e feliz, obviamente sem aqueles pneus laterais que às vezes são tão aerodinâmicos como as orelhas do Dumbo. O que é que qualquer mulher pensa? "É isto. É agora que vou perder 30kg e começar a viver a vida como sempre quis".

Mas há mais! Todos gostaríamos de obter o corpo ideal sem mexer uma palha, mas ninguém quer pagar por isso. Por isso, se a promessa de um corpo livre de gorduras já deixa os pré-obesos em pulgas, imaginem como eles ficam depois de ler 'a um preço económico'. Qual trabalho/escola/responsabilidades e demais preocupações mundanas? Eles vão é à farmácia mais próxima! Só precisam de saber o nome deste produto-maravilha…

Há uma piada fraquíssima que aparecia recorrentemente no meu feed do Facebook, que era qualquer coisa do género: quer ver-se livre da gordura facilmente e sem esforço? Use Super Pop!

Parece-me que a Super Pop gostou e decidiu aproveitar o trocadilho manhoso para fazer publicidade. Ao mesmo tempo, destroçou, por este Portugal fora, milhares de corações com paredes arteriais incrustadas de gordura a precisar de uma limpeza que seja suave para as mãos.

agosto 27, 2014

Tempos houve em que o pior presente que eu (e, suspeito, toda a gente) poderia receber era roupa interior. No caso de serem oferecidas meias, o que era frequente, também servia de roupa exterior. Roupa exterior foleira, que tentava esconder a todo o custo, mas visível ainda assim. Esses eram tempos em que pais, avós, tios, primos mais velhos, todos ofereciam roupa interior. "Porque é útil", diziam eles. "Porque nunca se tem de mais e dá sempre jeito", acrescentavam. Pois sim, mas continuava a ser impossível disfarçar a desilusão. A boca sorria, mas os olhos espelhavam a raiva que se reprimia ano após ano a cada mau presente. Havia ainda a versão 'roupa normal', o que também não era bom, mas pelo menos não havia aquele embaraço de olhar para as cuecas retiradas da bolsinha do pack de 4 e ter de dizer "isto não me vai servir" e ter de levar com o olhar de soslaio da tia que nos está a avaliar a cintura e as ancas e a pensar "comesses menos" ou assim.
Ah, a inveja que sentia das minhas coleguinhas, que chegavam à escola depois do seu aniversário/Natal e descreviam pormenorizadamente a amplitude de abertura dos membros da sua nova Barbie. Às vezes, a prenda também era roupa, mas roupa escolhida por elas, o que faz toda a diferença.

Os tempos, contudo, mudaram. Cheguei a um ponto na minha vida em que todas as minhas peças de roupa interior começaram a falhar em simultâneo. As meias estão a ficar esburacadas e demasiado gastas, as cuecas e soutiens estão com os elásticos frouxos.

Não parece grave? Todas as manhãs o meu grande dilema não é "ai, que não sei o que vestir! Não tenho nada no armário e/ou nada me fica bem". Com isso posso eu bem! Não, a minha maior preocupação é encontrar umas cuecas que não se enfiem sistematicamente no rego e um soutien que efectivamente me dê algum suporte, em vez de me fazer duvidar, de cada vez que desço umas escadas, se sequer tenho um vestido. Diria que tenho cerca de meia dúzia de cuecas que ainda não me deixam ficar mal, mas até essas estão a acusar cansaço com o constante uso. Em funcionáriopubliquês, cumpriram 40 anos de serviço, mas ainda têm 63 anos e a reforma parece cada vez mais longe, portanto isto está complicado.

O meu aniversário está quase a chegar e, em gritante contraste com a minha infância, como eu gostaria que todos os meus familiares e amigos se juntassem e me dessem um voucher de 250€ da Oysho para eu me perder em compras de roupa interior. Aliás, já nem peço uma Oysho ou uma Women's Secret. Desesperada como estou, o Continente ou o Jumbo já chegavam.

Acho que não preciso de ser mais clara.

agosto 26, 2014

How badass is that?

Fazer kettlebell ao som de Eye of the tiger.
Claro que hoje estou com pulso de velha com osteoporose…

agosto 06, 2014

Damn, I'm a goody two-shoes!

Hoje de manhã encontrei 5€. Quando os apanhei, ainda olhei em volta à procura de alguém a quem a nota pudesse pertencer. Incrivelmente, ninguém se acusou e teve de vir um toxicodependente, provavelmente acabadinho de afogar a ressaca, e dizer "são teus, menina. São teus" para eu assumir a coisa e continuar caminho.
Sou demasiado boa pessoa…

agosto 05, 2014

Damn, I'm drained

Estou tão a precisar de férias que me levanto de manhã já a pensar na perspectiva de me voltar a deitar no fim do dia. Nesse entretanto, praticamente tudo é um suplício.
Mais um sinal claro de que o meu prazo de validade como "jovem" está prontinho a expirar.

julho 08, 2014

Além disso…

… descobri hoje que, afinal, tenho direito a mais férias do que pensava.
O dia está mesmo a correr-me bem. Agora só resta curar esta tosse tuberculosa.

Damn, she's annoying

Ouvido no Spotify:

"Lana del Rey - uma artista única"

Sim, única na sua merdosice…